Amigos, em Sorocaba um menino de 13 anos teve dois dentes quebrados ao ser atingido por uma bolinha de gude, disparada pelo estilingue de um outro menino.
Não quer ir para a escola, pois tem vergonha dos colegas que “tiram sarro”.
Li essa noticia na Internet.
Aposto que os dois meninos sabem usar computador, gostam de videogames, sabem jogar Play Station e Wii.
Mas também gostam de armas e estilingue, que é uma espécie de atiradeira primitiva, praticamente a mesma arma que David usou para mator o gigante Golias com uma pedrada.Uma pouco mais sofisticada, é verdade, pois possui um gancho que serve para fazer a mira.
Tive estilingue e uma vez acertei um passarinho, para minha surpresa, pois atirava querendo acertar, mas nunca acreditando que o faria. Fui até o passaro ferido, lembro do peito do bichinho com um pequeno vazio de penas onde tinha acertado a pedra.
Nunca mais atirei pedras em nenhum passarinho. Mas lembro de um amigo, cuja família tinha dinheiro pra isso, que possuía uma espingarda de pressão, atirava chumbinhos. Olha que insanidade, mas essas espingardas devem ser comercializadas até hoje. Se deixar, os garotos vão querer. Falo porque meu filho João é absolutamente fascinado pela espingarda de carregar pela boca que eu tenho aqui em casa. A mesma que meu avô usava para espantar os pardais na sua roça.
Uma vez, quando eu era menino, um velho que costumava ficar sentado num banco em frente de casa no final da tarde, foi atingido por uma pedra que veio de longe. Não morreu, mas sangrou e levou pontos.
Foi a primeira vez que ouvi falar em bala perdida.
A quebra dos dentes da frente de um garoto é o tema central da peça Deus da Carnificina que estou ensaiando há dois meses.
O texto da francesa Yasmina Reza está fazendo sucesso em diversas partes do mundo e era motivo de cobiça dos atores que vão assistir peças no exterior.
É uma comédia com tons filosóficos, com características bem francesas, como o hábito de se reunir para discutir alguma coisa, chegar a algum consenso etc.
O pretexto da reunião, é uma declaração informal, escrita, que a mãe do garoto atingido decide expor aos pais da criança que agrediu seu filho.
Qual o castigo que será imposto ao menino, é a preocupação da mãe vítima.
Meu personagem é o pai do menino agressor. Ele é advogado e o tempo todo fala ao celular com a empresa que representa. Uma grande fabricante de medicamentos enfrentando uma denuncia sobre a eficácia de um de seus produtos que causa danos a saúde da população.
A decisão inicial dos personagens é baseada no politicamente correto. Avaliar o que aconteceu e tentar o melhor comportamento face ao fato.
Mas a situação exige muito dos quatro.
As combinações de possibilidades de tudo dar errado, pela gravidade do que aconteceu, vão se multiplicando e funciona estimulando o ódio entre eles, fazendo aflorar os problemas dos dois casais ao quadrado.
Alain-“ Verônica, veja bem, eu acredito no deus da carnificina, ele é o único que governa, sozinho, desde os tempos mais remotos.
Essa fala é do meu personagem.
Eu conheci o deus da carnificina quando tive meu primeiro estilingue. Não gostei nada do que aprendi com ele.