27/08/2010 - 12:43 Atualizado em 30/08/2010 - 12:45

Coluna Paulo Betti: Antonio Candido

"Qualquer outro livro de tanta importância viria com orelhas carregadas de elogios"

Paulo Betti

Amigos, estou com um livro sobre minha mesa que faz parte de minha vida de maneira muito forte. É a décima primeira edição do clássico “Os parceiros do Rio Bonito”, do mestre Antonio Candido, unanimidade como o mais importante intelectual de nosso País.

Essa edição da  Ouro Sobre Azul, é especialmente bonita e elegante, fazendo jus a qualidade do autor. A capa e a contra capa com sua tonalidade ocre, leva apenas o nome do autor e do livro.O nome do livro maior do que o do autor. Se procurar com muita atenção, lê-se também, em letras muito pequenas, o nome Ouro e Azul da editora.

Qualquer outro livro de tanta importância viria com orelhas carregadas de elogios ou estudos consagrando o livro que tem fortuna crítica imensa.

Mas não há nada escrito nas orelhas. O livro vai direto ao assunto mostrando a letra e foto do autor quando tinha vinte e nove anos e ficou hospedado por cerca de vinte dias na fazenda Bela Aliança em Bofete (SP), em 1948.Antonio Candido escreveu um estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida.

Estudei esse livro com muito proveito quando fizemos a peça “Na Carrera do Divino”. Éramos o grupo teatral Pessoal do Victor, tínhamos acabado de sair da Escola de Arte Dramática e estávamos contratados pela Unicamp, o grupo todo.Lembro que a recém falecida e querida professora Marlyse Meyer vibrava com o trabalho que estávamos fazendo, pois era vibrante estudiosa da cultura popular.

Ficamos trabalhando um ano com o livro de Antonio Candido e com outros autores como Waldomiro Silveira e Cornélio Pires. Lembranças de nossa infância na roça, regadas com muita musica caipira e mandioca frita.

Quando chamamos Carlos Alberto Sofredini para escrever a peça, foi o Parceiros o primeiro livro que entregamos a ele.

E foi desse livro que Sofredini emprestou toda a estrutura da peça. Sofredini, santista,  entrou no mundo estudado por Antonio Candido e dali tirou uma peça teatral substanciosa, escrita com maestria e qualidades dramaturgicas de primeira.

Sofredini trouxe 70% da peça e nos deu pra ensaiar. Quando tínhamos aprontado essa parte, ele assistiu e depois trouxe o que faltava. As cenas iam chegando e íamos colocando de pé. Era uma coisa muito boa, porque Sofredini acertava sempre.

Lembro do Adilson Barros pegando as folhas do texto e imediatamente incorporando as falas ao seu personagem, o atormentado Jeca, lavrando a terra e se recusando a aceitar a desgraça que se abatia sobre ele com a perda de seu chão.

A peça fez muito sucesso. Até um disco documento foi gravado pela RCA Victor. De vez em quando encontro um num sebo por aí.

Agora com esse lindo exemplar de Parceiros do Rio Bonito  nas mãos, me dou conta da sorte que tivemos por  esse livro como base de nosso trabalho.

Não me lembro como chegamos ao livro. Quem deu a dica da leitura? Será que foi Marlyse Meyer?
O livro mais bonito que eu tenho em minha casa é Parceiros do Rio Bonito.

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